A objeção do câncer como razão de transição

A vida cega não consegue distinguir entre autopreservação legítima e autopreservação parasitária. O câncer cumpre formalmente todos os critérios de C³ — ele se diferencia (metástases formam seu próprio suprimento sanguíneo), se preserva (contra o sistema imunológico), se reproduz (metástase) — mas, ao fazê-lo, destrói o organismo que o sustenta. Da mesma forma, um regime fascista (que se diferencia em quadros de comando, se preserva por meio do terror, se reproduz por meio da propaganda) ou um capitalismo parasitário podem cumprir os critérios formais de C³ e, ainda assim, destruir o todo.

Isso mostra que a vida em si não basta. É preciso conhecimento para distinguir entre o êxito e o fracasso. Sem reflexão, a vida é cega — o câncer também “vive”. A primeira consequência: a ideia da vida, por si só, não pode fundamentar uma ética. Ela precisa do conhecimento.

Capítulo 21: Conhecer e Querer — A Ideia Cindida

Para que preciso disso? Teoria e prática — será que podem se encontrar? O teórico quer compreender o mundo (e, ao fazê-lo, transforma-o). O prático quer transformar o mundo (e, para isso, precisa compreendê-lo). Ambos fracassam quando permanecem sozinhos. Este capítulo mostra por quê — e como se apresenta a unidade entre eles.