Comentário ao Espírito subjetivo, Capítulo 48
O que a edição realiza
O mesmo que no caso da natureza: Petry comprova de onde vem o material de Hegel. Sua lista das antropologias alemãs contemporâneas compreende dezenas de títulos — desde os Anfangsgründen der physiologischen Anthropologie [Fundamentos da antropologia fisiológica] de Loder (1800), passando pela Populäre Anthropologie [Antropologia popular] de Pölitz, até as Anthropologischen Bemerkungen über das Gehirn und den Schädel des Menschen [Observações antropológicas sobre o cérebro e o crânio do homem] de Bartels (1806), esta última “com constante referência às descobertas de Gall”.
Com isso torna-se demonstrável o que de outro modo permaneceria conjectura: Hegel lia a literatura especializada de seu tempo, e a Antropologia a assimila.
Sua tese sobre a relação entre empiria e sistema
É a contribuição mais importante, e atinge a acusação de Exner de má-fé metodológica em sua raiz:
Hegel poderia julgar dessa maneira “a passagem do corpo ao espírito e o vazio do acesso filosófico tradicional a essa passagem” porque sistematiza filosoficamente a estrutura empírica dessa passagem. “Se removermos o fundamento empírico, se contestarmos o valor da atenção precisa que ele dedica à pesquisa empírica pertinente de seu tempo”, então sua crítica perde seu chão.[1]
Esta é a posição contrária à de Exner numa única frase. Onde este considera a incorporação de material externo uma má-fé metodológica, Petry vê nela a condição sob a qual o juízo de Hegel tem, afinal, algum peso.
E ambos têm diante dos olhos o mesmo achado — que a Antropologia vive de matéria alheia. Avaliam-no de modo oposto, e a decisão se dá conforme se espera da lógica que ela produza matéria, ou que a ordene.
O que contêm os volumes 2 e 3
O comentário segue o texto parágrafo por parágrafo, alemão e inglês lado a lado, com as referências ao pé da página. Para este volume, ele foi útil onde Hegel assume uma posição que não está no texto de base — como a rejeição da pedagogia lúdica no acréscimo ao § 396 (ver Parte I).
Uma observação de procedimento: os volumes existem apenas como digitalização sem camada de texto pesquisável. Podem ser lidos página por página, mas não pesquisados — o que significa que sua utilização segue o que se procura, e não o que ali está.
Um achado sobre senhor e escravo
Petry situa a passagem do mesmo modo que este volume o fez — e confirma-o a partir da história da redação: Hegel ilustra os estágios da autoconsciência que se reconhece aparentemente por meio da dialética senhor-escravo “para ajudar seus estudantes a acompanhar uma seção particularmente abstrata e difícil da Fenomenologia”.
E a conclusão: “Não se trata, porém, de um tratamento sistemático de tais situações, mas da ilustração de um estágio da consciência.”
Isso corrobora o que Stekeler mostra por outros meios: senhor e escravo é uma imagem, não um programa — e quem dela extrai uma filosofia da história desconheceu a função da passagem.
G. W. F. Hegel, Philosophy of Subjective Spirit, editado e traduzido por Michael John Petry, 3 vols., Dordrecht 1978, vol. 1, Introduções, p. liii e lxxxviii. A lista das antropologias contemporâneas, ibid., Apêndice. ↩︎